IKIGAI
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Lucio Francesco Saggioro

Ikigai é uma palavra japonesa que se tornou popular depois que o povoado de Okinawa, uma ilha do arquipélago japonês, foi objeto de estudo por parte de muitos investigadores. A atração que Okinawa produz entre os estudiosos vem não só do fato de que as pessoas que ali vivem são as mais longevas do mundo, mas também em como elas chegam à velhice; de forma muito enérgica e feliz.

Entrando em contato com essas pessoas os investigadores descobriram que o segredo da população de Okinawa é o IKIGAI. Eles afirmam que para ter uma vida longa e feliz é importante que cada pessoa encontre e cultive o seu próprio Ikigai.

Ikigai é uma palavra composta; IKI que pode ser traduzido com o verbo “viver” e GAI que pode ser traduzido com o substantivo “finalidade” ou “sentido”. Então, uma primeira tradução poderia ser “a finalidade da vida” (o objetivo da vida) ou “o sentido da vida”. Sendo um conceito muito complexo IKIGAI pode também significar: “a motivação que dirige a minha vida”, “o que preenche a minha existência”. “sentir-se vivo”, “realizar-se na vida”, “viver em plenitude”.

Os habitantes de Okinawa dedicam a vida trabalhando o IKIGAI e a boa notícia é que cada pessoa tem o seu próprio  IKIGAI, sendo de vital importância achá-lo.

O que se pode observar é que não só a população de Okinawa se pergunta sobre o sentido da vida. Cada um de nós pelo menos uma vez na vida se fez umas perguntas existenciais. A produção filosófica desde a antiguidade até os dias de hoje reflete sobre qual é o propósito da vida. A maioria de nós concorda em que, quando nos referimos ao sentido da vida é um tema relacionado com o mundo interior. Mundo interior que eu pessoalmente denomino “dimensão espiritual”.

Cada vez estou mais convencido de que a dimensão espiritual é uma necessidade básica do ser humano e assim como outras necessidades básicas precisa um cuidado específico. Há múltiplas teorias sobre as necessidades humanas vindas da antropologia e da psicologia.

Diversas teorias do campo psicológico e antropológico desenvolvem e tentam ordenar as necessidades humanas; fala-se de necessidades primárias e secundárias, conscientes e inconscientes, voluntárias e involuntárias.

A neurociência explica que nosso cérebro desde sua origem buscava satisfazer três necessidades básicas: necessidade de segurança, necessidade de gratificação e necessidade de socialização. O cérebro do ser humano em 2.000.000 de anos triplicou sua dimensão (no sentido de tamanho) então isso produziu mais “trabalho mental”, o ser humano se desenvolveu mais como ser social (em maior ou menor grau). Igualmente, o fato de satisfazer essas necessidades básicas também se tornou mais complexo; já não interessa somente a “que” necessidades concretas satisfazer, mas a procura do “como” e do “porque” disso.

Um dos postulados mais famosos sobre a hierarquia das necessidades é obra do psicólogo estadunidense Abraham Maslow. Maslow afirma que a palavra necessidade indica “alguma coisa que falta”. Essa alguma coisa que falta não pode somente ser satisfeita para manter a vida, mas que também é um incentivo para buscar na vida algo mais além da simples sobrevivência. As necessidades de acordo com este autor estão estritamente relacionadas com as motivações.

O psicólogo estadunidense (Maslow, 1954) se refere a cinco tipos de necessidades:

  1.  Necessidades fisiológicas.
  2.  Necessidades de segurança e proteção
  3.  Necessidades de filiação.
  4.  Necessidades de reconhecimento.
  5.  Necessidades de autorrealização.

Pessoalmente entre as necessidades de reconhecimento e as necessidades de autorrealização eu incluiria a necessidade de transcendência, que é este impulso do ser humano em direção à busca do sentido do que ele é, do que ele vive.

Então, a necessidade de transcendência é a força que nos impulsiona a buscar respostas às perguntas que surgem em nossa vida.

A necessidade de transcendência é a força que produz nos grupos sociais as experiências religiosas, as reflexões filosóficas, as buscas antropológicas.

Esta necessidade de transcendência eu chamo de “dimensão espiritual” e precisa um cuidado e um desenvolvimento adequado. No âmbito acadêmico já há tempo que se diferencia a inteligência espiritual e a inteligência emocional (Saggioro, 2014).

Desenvolver a dimensão espiritual é o cuidado com nosso mundo interior, lugar onde tudo o que vivenciamos ganha sentido.

Aqui é onde encontro no Mindfulness uma luz na escuridão.

Desenvolver a Atenção Plena nos permite entender melhor a própria vida. É uma capacidade de todas as pessoas e que todas as pessoas podem atingir. Uma capacidade que nos colocando em relação mais atenta com a vida, permite que possamos desenvolver a dimensão espiritual ou nosso mundo interior de forma mais eficiente. Eis porque consideramos que a atitude Mindfulness pode se relacionar com a espiritualidade; a prática da Atenção Plena favorece o desenvolvimento de aspectos específicos de cada tradição espiritual. A Atenção Plena te conecta com teu mundo interior, que é o núcleo da dimensão espiritual.

Costumo lançar mão deste exemplo para explicar a relação entre Mindfulness e dimensão espiritual.

A vida é como uma horta, um caminho espiritual são as sementes que eu quero semear e cultivar, a Atenção Plena é uma das ferramentas que me permitem preparar a terra onde semear e cultivar as sementes escolhidas. Quanto melhor trabalhada a terra estiver, melhor crescerão e frutificarão as sementes.

A finalidade da horta é produzir o que se cultiva, as ferramentas nos ajudam a atingir o nosso objetivo.

O confronto entre experiências de vida ajuda a crescer no conhecimento sobre a vida, e, se todos aprendermos a viver com sentido criaremos um mundo com muito mais paz e harmonia. A vida sem saber o que somos ou o que fazemos nos coloca em uma situação de ignorância, e a história da humanidade nos mostra que a ignorância é a raiz de qualquer forma de “não vida”.

Buscar um sentido na vida, nosso Ikigai, nos permite evitar alimentar a ignorância.

Mindfulness nos ajuda a estar atentos à vida, a observar a vida, a escutar a vida; estar atentos, observar e escutar são três ações fundamentais num processo de busca de sentido.

A contínua busca do “sentido” nos conduz ao encontro da paz interior, a uma realidade de harmonia íntima conosco mesmo apesar de tudo o que acontece nesta misteriosa aventura que se chama vida. A busca do sentido do que eu sou e do que eu faço sempre tem como

fruto a paz interior. Podemos dizer que a paz interior é o que determina se a busca está correta ou errada. Por isso, até hoje dedico minha vida principalmente em buscar e dar cada dia um sentido profundo ao que sou e ao que faço. Mesmo que não tenho respostas para tudo o que vivencio cada dia, mesmo que não tenho fórmulas para solucionar qualquer dificuldade, penso que o sentido da vida é viver; melhor dizendo, o viver. E, observando a vida se pode entender a própria vida, é a vida que explica a vida.

“Cada um de nós percebe em seu coração o desejo de viver uma vida cheia de sentido. Este desejo é suficiente para fazer de nós uns investigadores e uns descobridores de sentido por toda a vida” (Elisabeth Lukas).

 

 

Referências:

García-Campayo, J., Demarzo, M. Mindfulness. Curiosidad y aceptación. Zaragoza: Siglantana, 2015

Lemke B. IKIGAI. Firenze: Giunti, 2017

Hanson R. La forza della resilienza. Firenze: Giunti, 2018

¹ Cada vez estou mais convencido que o sentido da vida não é resolver problemas como erroneamente a cultura capitalista educa.

 

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